terça-feira, 27 de março de 2007

TEMPO

Tempo
notícias de inverno no ceará onde o sol tosta turistas


Hoje cedo amanheceu nublado. Neblinou, até...
Pingos de chuva fizeram poesia na janela do quarto.
No jornal,
Por essas bandas, o inverno é mais esperado
que menino novo em casa de muita prole.
As nuvens, pelo menos, andam grávidas.
Elas chegam,
arrastam-se pelo céu cinzento,
mas acabam sendo espanadas pelo vento aracatí, sem rumo certo.
No céu do Ceará, o sol esquenta seu calor, o couro de mil turistas.

segunda-feira, 26 de março de 2007

AO POETA POETINHA VINÍCIUS DE MORAES


AO POETA, POETINHA VINICIUS

Nem ais, eu, posso dizer mais
Quanto mais dizer Vinicius

Quantos vícios na arte de viver?
Quanta arte no vício de sentir?
Quanto sentir na arte do vício?

Só posso ser o sítio de ouvir
A arte do encanto
Que descubro no seu canto
Que sinto no seu sentir

Quanta vida terá ficado por viver?
Quanto verso virgem por escrever?
Quanta mulher ficou por descrever?
Quanta canção não escrita por saber?

Nem ais, eu posso mais dizer
Quanto mais dizer Vinicius

Quanta bossa no samba do poeta?
Quanta raça vai da branca à preta?
Quantas rimas na rima do poema?
Quantas garotas, há ainda em Ipanema?

Brancas de todas as cores
Pretas de todas as dores
Lindas de todos os amores
Feias de todos os sabores

Quanto me falta ainda descobrir?
Quanto me falta ainda por sentir?
Quanto Saravah distribuir?
Na vida toda que está por vir?

Ah! Meu poeta, poetinha
A tua vida toda não foi minha
Camarada no caminho que caminha
Eu não sou mancha, nem sequer manchinha

Apenas aprendiz de poesia
Sinto em cada tua melodia
A arte maior de cada dia
O amor que apenas tu podia

Que posso eu dizer mais? Nem ais…
Vinicius foi em si, tudo o que eu queria!




domingo, 25 de março de 2007

CATENDE


Catende fica a 142km de Recife, na Mesorregião da Mata Pernambucana. Faz fronteira com Palmares. Sim, a Palmares do Quilombo, do rei Zumbi. E vive da agro-indústria açucareira (cana-de-açúcar).
"- Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar..."
(Ascendino Ferreira)

A canção do africano
















Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ...


De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!


"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!


"0 sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!


"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar ...


"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".


O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!


............................


O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.


E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!

AS MÃOS (Manoel Alegre)

















Com mãos se faz a paz se faz guerra.

Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.