segunda-feira, 18 de junho de 2007

BRASIL / Cazuza / Nilo Roméro / George Israel

Brasil

Cazuza

Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer

Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito é uma navalha

Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada pra só dizer "sim, sim"

Brasil
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Grande pátria desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
(Não vou te trair)

domingo, 17 de junho de 2007

Canção na plenitude / Lya Luft

Canção na plenitude

Lya Luft


Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.


O texto acima foi extraído do livro "Secreta Mirada", Editora Mandarim - São Paulo, 1997, pág. 151. www.releituras.com

DIA DE DOMINGO

SOZINHO

FEITO NÓS / MILTON NASCIMENTO




Feito Nós
Milton Nascimento


Feito um anjo decadente

Meio santo, meio gente, à meia luz

Feito virgem inocente

Meio Deus, meio demônico, feito nós

Feito bicho em longo cio

Meio bom, meio ruim, quase normal

Feito a vida, enlouquecida

Meio morte, meio gozo

E carnaval

Séculos de lutas e de luto

Máscaras de dor e de arrôgancia

Décadas de nomes e de fome

Pátrias dissolvidas pelo poder

Lâmina que corta a carne fraca

Código de ética da raça

Máquina que mata sem remorso

Mácula na branca luz da manhã

Feito um mártir meio ingênuo

Meio burro, meio gênio nada mais

Feito louco, feiticeiro

Meio Cristo, meio Exu e Satanás

Mágicos e faunos na floresta

Lógica da física concreta

Cântico eternos como o vento

Tempo de escutar a terra falar

Lágrimas de todas as crianças

Dádiva de amor e de esperança

Pálido o futuro nos abraça